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Julho/2004
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miércoles, abril 16, 2008
PIAF NO ESPELHO
(Como meu tempo anda meio curto, eis um texto utilizado na faculdade em 2007. Era isso ou letra de música!) Esses cabelos pretos e confusos, menos encaracolados do que antes, estão menos confusos do que antes. Estão mais arrumados, organizados, alinhados. Pode ser sinal da idade que chega e dá seus indícios no rosto, nos olhos também pretos. Está na hora de deixar os cabelos e olhos vivos da infância para adotar suas versões adultas e desgastadas. A idade chegou. Chegou e trouxe uma barba quase completa para o rosto. Barba essa quase sempre exposta sobre rosto e pescoço, que não têm tempo, paciência e gosto para encarar a lâmina. Mas que incomoda menos quando não se exibe tanto, vá... Perdido ali no meio, um sorriso constante e, por vezes, artificial. Vira e mexe, uma cadeia de dentes simétricos e amarelados que impede a saída das angústias pela boca. Uma porta de cadeia para trancar o sofrimento e a tristeza garganta adentro, enjaulada nos males do estômago. Tudo por trás do sorriso constante e que se acha bonito. Seria um rosto falsamente amadurecido – forjado mesmo – se não fossem os brincos. Um em cada orelha, prateados e redondos. Poderiam até dizer que são orelhas rebeldes, mas são apenas orelhas vaidosas. No fundo, vaidosas são as orelhas, os cabelos indecisos e a barba que se exibe. Vaidosa é a toda cabeça. Vaidade que não combina com o escapulário repousado ao redor do pescoço, caindo sobre o peito. “Criação no interior tem dessas”, devem pensar. Uma tirinha de fio com duas imagens religiosas, que não escondem o tom tradicional pretendido. Que não casa com a vaidade de brincos, cabelos e barbas, mas que parece motivar durante o charme marginal e arrasador da rotina que envelhece os olhos e angustia o sorriso. A mesma rotina que castiga o corpo esguio, os braços finos e as pernas longas, constantemente procuradas para trocar o descanso pela obrigação. Que não dá tempo e que curva as costas e incomoda com dores. Que pendura os braços sob os ombros magros, que marca o peito e que suja os cabelos. Que amarela os dentes, que marca os olhos e que estimula a barba. A rotina que transformou o menino em velho, de corpo, rosto e alma, em uma viagem rápida e sem intervalos.
Por EMANUEL NOVAES às 9:50 AM
| martes, abril 08, 2008
PEQUIM, TIBET, DINHEIRO, VOLTAIRE E OBA-OBA
A tocha dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 não irá passar pelo Brasil. Na América do Sul, ainda que sem muita explicação, a única cidade contemplada será Buenos Aires. Porém, pensando bem, pode ser até bom que o fogo olímpico não dê as caras por aqui. A China em si é um país que merece ser observado com atenção. Trata-se de uma nação de 1 bilhão de habitantes cuja economia cresce a ritmo vertiginoso, mas no qual apenas um percentual de pessoas concentradas em uma faixa litorânea é favorecida por tal pujança. No mais, grande parte da população continua vivendo no interior do país, agrícola e atrasado. Não é uma concentração de renda como a que se vê no Brasil, mas já é um fenômeno destacável.
(Crédito: Stuart Franklin/Magnum) Além disso, o Partido Comunista Chinês, que rege o país desde 1949, não vê muitos problemas em suprimir informação no país – tanto que tem no principal jornal do país, o China Daily, seu grande porta-voz. Cobertura ocidental de TVs, sites, jornais, revistas e rádios não tem espaço em território chinês. Mídia oposicionista local? Nem pensar! Até mesmo o acesso ao YouTube é proibido entre os chineses. O posicionamento do China Daily pode ser notado, por exemplo, na cobertura das manifestações favoráveis à independência pacífica do Tibet. Há destaque para o telegrama recebido em 1951 pelo Governo chinês, no qual o Dalai Lama vigente (o 14º) manifesta comprometimento tibetano ao Acordo de Libertação Pacífica do Tibet, assinado em 23 de maio daquele ano (e que até hoje espera por algum avanço significativo). Mas nenhum destaque aos monges mortos. (Crédito: Repórteres Sem Fronteiras) Desde que a atual tocha olímpica foi acesa, o mundo tem se manifestado a favor dos tibetanos. A província tem sido palco de diversos confrontos entre manifestantes e policiais. Cidades como Londres e Paris já protestaram durante a passagem do fogo chinês por suas ruas. Deputados franceses exibiram seu repúdio à violência contra o Tibet. Diversos atletas prometem algo parecido durante os Jogos Olímpicos que começam em agosto. Os mesmos atos devem acontecer em San Francisco e Buenos Aires, próximas paradas da rota da tocha e únicas cidades das Américas a receberem a ilustre visita – que não passará nem mesmo por antigas sedes dos Jogos, como Montreal, Los Angeles, Saint Louis e Atlanta. Na capital argentina, certamente teremos protestos ferrenhos dos jovens – o que talvez não acontecesse no Brasil, onde centenas de pessoas iriam se aglomerar para ver Pelé e três ou quatro personalidades da TV desfilando com o símbolo. A única base que acredita nos Jogos Olímpicos de Pequim é formada pelos próprios chineses, que se manifestam pelo mundo a favor de seus Jogos em casa – ainda que não saibamos mesmo se eles deixaram o país por terem dinheiro ou por fugirem do "carisma" do presidente Hu Jintao. A China, enquanto isso, vai se fechando e mudando o eixo sócio-econômico do mundo em direção ao Oriente, atraindo mais dinheiro e menos Voltaire. Resta saber se vamos nos deixar levar por dinheiro ou por Voltaire. Hoje, tenho certeza de que a chama olímpica no Rio de Janeiro iria deixar claro nosso oba-oba.
Por EMANUEL NOVAES às 9:46 AM
| sábado, abril 05, 2008
A VOLTA AO MUNDO EM 80 COISAS LEGAIS PRA CARALHO
Há tempos nós não damos uma volta, né? 4. Itália Vez em quando, eu começo a pensar na lista de personalidades que eu gostaria de ter visto ao vivo. Pessoas geniais que já morreram, as quais eu não pude ver em ação porque eu era muito novo ou sequer nascido. Ou porque não tive a chance mesmo. A lista é grande: Astor Piazzolla, Ayrton Senna, Frank Sinatra, Edith Piaf, Telê Santana, Carlos Gardel, Elvis Presley... Enfim, alguns nomes. E, dentre eles, está o de Luciano Pavarotti, falecido em agosto de 2007. Ao lado dos espanhóis José Carreras e Plácido Domingo, Pavarotti formava o mais conhecido trio de tenores da música erudita mundial. Torcedor da Juventus de Turim, este simpático filho de Modena começou a fazer sucesso mundial apenas em 1990, exatamente pela apresentação da ária Nessum Dorma (da ópera Turandot, de Puccini) ao lado de Carreras e Domingo na final da Copa do Mundo. Nessum Dorma. Não é a final da Copa, mas tem Zubin Mehta. A partir daí, o tenor italiano se popularizou. Andava de chapéu e camisa florida, e começou a ser visto ao lado de grandes artistas e personalidades, como Lady Di, Jon Bon Jovi e Bono Vox – embora não precise muita coisa hoje em dia para aparecer ao lado do Bono. Na década de 90, Pavarotti era pop e fez com que a ópera alcançasse número de vendagens que o estilo jamais havia alcançado. Sim, Pavarotti era pop. Morreu pop. Virou funk. E é melhor que eu me apresse, antes que eu perca a chance de conhecer nomes como Éder Jofre, André Rieu, José Hamilton Ribeiro, Burt Bacharach e tantos outros que eu ainda preciso ver em vida. Pavarotti, fazer o quê?, eu já perdi a chance.
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