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domingo, septiembre 30, 2007
MEU PRIMO DÊNIS

Dênis não entendia nada de mulher.

Mas não era culpa de Dênis, claro. Era esforçado, romantizado, engraçado... Um cara à moda antiga. Tinha a pretensão de entender a tal da alma feminina e achava que conseguiria um dia. Claro, jamais adiantaria: não entendia de mulher.

Um dia, botou na cabeça que seria músico. Os músicos eram algo como novos poetas, caras que entendiam de sentimentos. De palavras, de poesias. Quem entendia dessas coisas todas, entenderia a alma feminina.

E assim foi. Virou músico. Não era mais do que principiante e não entendia nada – nem a música, nem as mulheres. Foi então que conheceu Renata.

Não que o fato de ser músico tivesse ajudado a conhecer Renata, longe disso. Renata era amiga de um amigo de longa data, Júlio. Júlio namorava a irmã de Renata, Rafaela. E Júlio falou de Dênis a Renata. Identificação imediata.

Uma dia, eles se conheceram e se gostaram. Ele, é bem verdade, bem mais do que ela. Aí, Renata decidiu sumir e deixar Dênis desesperado. Foram meses, anos de tristeza e dor de amor mal curada na Boate Azul. Dênis namorou e não se gostou da namorada. Renata namorou e não gostou de namorar.

Passou o tempo e eles voltaram a se encontrar. Dênis jamais esqueceu de Renata, e Renata parecia feliz de rever Dênis. Saíram e se gostaram, mas a dor de amor era maior, e Dênis não vencia sua desconfiança.

Todo romântico, o rapaz vacilou. Tentou apresentar Astor Piazzolla para Renata, que apresentava Panic! At The Disco para Dênis. Ele era dois, três anos mais velho do que ela, mas era Renata que assustava com tanta segurança. Dênis se encantou.

Ora, bem ele que nunca se deu bem com arianas, com taurinas, que pareciam se dar tão bem – e no fim, tão mal – com os librianos. Dênis chamou Renata para sair uma, duas, três vezes. Cinema, almoço, chopp, bar. Apresentou Renata aos amigos, que contavam os minutos para ver o casal.

É bem verdade que Denis tinha medo que ela sumisse, o que não seria novidade. Queria oficializar logo a nova musa. Um dia, ela sumiu de novo e ele perguntou o porquê. Foi então que ele descobriu que ela não queria nada sério.

A eterna gastrite quase abriu um buraco no estômago do desesperado Dênis. Tinha medo de que a nova mulher de sua vida fosse comprar cigarros, para talvez não voltar. “Você é especial”, ele dizia. “Não quero acabar te magoando”, respondia ela. “Te entendo, e me sinto horrível. Não quero que você se sinta usado.”

Usado... O que era a mágoa? “Era melhor tentar e se magoar do que se magoar por não ter tentado”, pensava ele. A moça que não servia para namorar não sabia de nada, mas não cedia. Quase uma cena de filme, com Allan Delon rasgando sua camiseta sob a chuva, ele pediu para vê-la mais uma vez.

Ela topou. Dênis não sabia, mas Renata parecia querer ceder. Eles se encontraram, se olharam e fizeram amor louco. Dênis beijou Renata e olhou-a nos olhos:

-- Te amo.

Renata se vestiu e nunca mais apareceu, nunca mais atendeu ao celular, nunca mais respondeu e-mails. E continuou sua faculdade e dando suas aulas de inglês.

Denis, definitivamente, não entendia nada de mulher. Decidiu ser jornalista.

Por EMANUEL NOVAES às 12:07 AM
Xinga a mãe!